Por anos, o cartel de drogas Los Zetas colaborou com um libanês que possui vínculos com o grupo militante xiita do Oriente Médio Hezbollah, de acordo com autoridades federais do governo americano.

Los Zetas trabalharam com libanês do Hezbollah, segundo EUA

Por Miguel Angel Escobar
Homens carregam caixas de produtos contrabandeados pelas ruas poeirentas de Ciudad del Este, Paraguai, há muito considerada uma central das atividades do Hezbollah na América Latina.

Homens carregam caixas de produtos contrabandeados pelas ruas poeirentas de Ciudad del Este, Paraguai, há muito considerada uma central das atividades do Hezbollah na América Latina.

Por anos, o cartel de drogas Los Zetas colaborou com um libanês que possui vínculos com o grupo militante xiita do Oriente Médio Hezbollah, de acordo com autoridades federais do governo americano.

Ayman Joumaa, 47 anos, coordenou remessas de cocaína e lavagem de dinheiro para o cartel, disseram autoridades. O criminoso, também conhecido como “Júnior”, foi indiciado pelo grande júri federal da cidade de Alexandria, EUA, em 23 de novembro, informaram autoridades do Departamento de Justiça, que divulgaram detalhes do indiciamento em 13 de dezembro.

Joumaa é acusado de conspiração para distribuição de cinco quilos ou mais de cocaína e de conspiração para lavagem de dinheiro, afirmaram autoridades judiciárias dos EUA. Caso seja condenado, ele poderá pegar a pena máxima de prisão perpétua.

Seria um sinal de atividade iraniana na América Latina?

Uma ligação do Hezbollah com o Los Zetas pode ter implicações políticas de vasta amplitude para México, Estados Unidos e Irã, dizem analistas. Tal conexão pode sinalizar o início de uma crescente influência na América Latina do Irã, uma nação xiita suspeita de estar tentando construir armas nucleares.

Não se acredita que Joumaa esteja sob custódia e seu paradeiro é desconhecido. O jornal The New York Times afirma que o procurou em Beirute sem sucesso.

O indiciamento alega que Joumaa possui conexões com Medellín, Colômbia, a ex-capital mundial da cocaína, além de revelar publicamente a ligação do cartel de drogas mexicano com um importante banco em Beirute. Autoridades americanas também suspeitam que o banco apoia o Hezbollah.

“Dinheiro é o combustível do narcotráfico e o Sr. Joumaa estaria no centro de tudo isso – trabalhando com aqueles que produzem a maior parte da cocaína mundial para levá-la em segurança às mãos dos cartéis mexicanos, movimentando centenas de milhões em faturamento no mundo inteiro para que o dinheiro não possa ser rastreado de volta à Colômbia”, disse o procurador americano Neil H. MacBride, cujo território inclui o Distrito Leste do estado da Virgínia.

“As redes do crime organizado desconhecem fronteiras, muito menos os EUA. Meu gabinete tem longa tradição em desvendar crimes internacionais que ocorrem em nosso distrito e esse caso é mais um exemplo de que estamos enfrentando agressivamente esse problema no exterior”, disse MacBride na terça-feira.

A administradora da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA), Michele Leonhart, concorda.

“Ayman Joumaa é acusado de facilitar os carregamentos de enormes quantidades de cocaína para os Estados Unidos e de lavar o dinheiro dessas operações por todo o planeta”, disse Leonhart. “De acordo com informações de certas fontes, essas supostas atividades relacionadas a drogas e lavagem de dinheiro facilitaram diversas organizações globais de narcotráfico, incluindo as atividades criminosas do cartel de drogas mexicano Los Zetas. A DEA e nossos parceiros continuarão a expor e a desmantelar essas redes espalhadas pelo mundo.”

Em janeiro, o Departamento do Tesouro rotulou Joumaa como um barão das drogas, conforme a “Lei de Barões de Drogas” (Kingpin Act). Nesse período, autoridades governamentais americanas descreveram a suposta atividade de tráfico e lavagem de dinheiro do libanês na América do Sul, África e Europa.

Uma longa parceria com Los Zetas

Mas o indiciamento fornece detalhes de seu suposto envolvimento com o Los Zetas e atividades criminosas transnacionais mexicanas.

Por exemplo, Joumaa é acusado de coordenar o tráfico de pelo menos 85 toneladas de cocaína colombiana através do México em parceria com o Los Zetas. Entre 1997 e 2010, o indiciamento o acusa de lavar centenas de milhões de dólares em lucros provenientes das drogas em nome do cartel.

O indiciamento não menciona especificamente o Hezbollah, mas, segundo agentes da lei, as evidências indicam uma conexão indireta entre o grupo terrorista do Oriente Médio e o negócio criminoso transnacional mexicano. E, talvez, a evidência mais forte dessa conexão seja o banco com sede em Beirute com presença canadense chamado Banco Libanês Canadense.

Em fevereiro, o Tesouro invocou uma cláusula raramente utilizada da Lei Patriota dos EUA (sancionada após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001) para declarar o banco uma instituição com “interesses primordiais em lavagem de dinheiro”. Essa declaração proíbe o banco de negociar com outras instituições financeiras americanas.

A declaração oficial do indiciamento contra Joumaa não é a primeira realizada por autoridades do governo americano sobre supostas conexões entre organizações do Oriente Médio e cartéis de drogas mexicanos. Em outubro, autoridades dos EUA prenderam um cidadão iraniano-americano acusado de tentar recrutar, em nome do Irã, franco-atiradores de cartéis de drogas mexicanos para assassinar um diplomata saudita.

Cartéis de drogas e grupos terroristas são tidos como parceiros

“Grupos muito poderosos do narcotráfico e organizações terroristas estão se unindo”, disse Michael Braun, ex-administrador do DEA, a um comitê do Congresso durante audiência em 13 de outubro sobre o suposto complô para o assassinato. Autoridades americanas disseram estar preocupadas que o Hezbollah possa estar fornecendo informações para o Los Zetas sobre como fazer bombas sofisticadas. O grupo terrorista libanês também é conhecido por sua tecnologia de construção de túneis – uma ferramenta essencial que tem sido utilizada por cartéis mexicanos para traficar drogas para os Estados Unidos.

Há muito tempo, o Hezbollah é considerado uma organização terrorista pelos Estados Unidos e apontado como culpado por diversos ataques de grande envergadura contra instalações americanas nas últimas décadas. O atentado mais notório atribuído à organização libanesa ocorreu em 1983, quando uma ataque suicida contra a Embaixada dos EUA em Beirute matou 60 pessoas, entre as quais fuzileiros navais americanos.

O Hezbollah travou uma guerra sangrenta contra Israel em 2006. Desde então, o braço político do grupo vem realizando esforços crescentes para aparecer como uma facção política legítima do governo libanês. Mas o jornal americano The New York Times noticiou esta semana que a mesma guerra travada contra Israel pode ter encorajado o Hezbollah a aumentar sua atividade criminosa na América Latina para ajudar a custear as ambições políticas do grupo.

Joumaa parece ser o elo fundamental dessa conexão. Diz-se que o cidadão libanês fala espanhol fluentemente e acredita-se que ele morou na Colômbia até cerca de 11 anos atrás, quando retornou a sua terra natal para fugir ao crescente escrutínio das forças policiais.

 

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