Na maioria dos países, uma insurgência comunista que tenha sobrevivido quase meio século constituiria uma importuna ameaça à segurança nacional. Mas os guerrilheiros do ELN na Colômbia nunca foram encarados como prioridade.

Colômbia: Rebeldes do ELN se unem às FARC

Análise de John Otis
O líder militar de Liberación Nacional Ejercito da Colômbia, Antonio Garcia, fala durante fevereiro 2006 as negociações de paz em Havana. [Reuters/Enrique de la Osa]

O líder militar de Liberación Nacional Ejercito da Colômbia, Antonio Garcia, fala durante fevereiro 2006 as negociações de paz em Havana. [Reuters/Enrique de la Osa]

BOGOTÁ – Na maioria dos países, uma insurgência comunista que tenha sobrevivido quase meio século constituiria uma importuna ameaça à segurança nacional. Mas os guerrilheiros do ELN na Colômbia nunca foram encarados como prioridade.

Isso ocorre porque as forças armadas colombianas passaram décadas lutando contra inimigos maiores e aparentemente mais perigosos, o que não significa que o ELN (Exército de Libertação Nacional) deixou de ser uma ameaça.

Recentemente, o ELN se uniu às FARC, a maior guerrilha da Colômbia, e a organizações de narcotráfico para realizar ataques e engrossar seu orçamento de guerra. Essas alianças podem estar proporcionando um segundo fôlego ao bastante debilitado ELN.

“Depois de um declínio acentuado e rápido no final dos anos 90, o ELN se tornou bastante irrelevante”, disse Jeremy McDermott, codiretor do Insight Crime, um núcleo de estudos estratégicos colombiano. “Mas um súbito aumento nos níveis estimados das tropas rebeldes, bem como um pico no número de ações militares relacionadas a suas recém descobertas fontes de financiamento, está começando a mudar essa percepção.”

Outros analistas insistem que o ELN continua na iminência de desaparecer e foi forçado a essas novas alianças por uma questão de sobrevivência, alegando que o grupo está, praticamente, sendo engolido pelas FARC, enquanto seu envolvimento no narcotráfico – uma atividade que o exército rebelde havia inicialmente repudiado – causa danos ainda maiores à sua reputação.

“Política e militarmente, o ELN é insignificante”, disse Otty Patiño, membro fundador do grupo guerrilheiro M-19, que depôs as armas em 1990. “O ELN não tem significado no seio da população colombiana e seu envolvimento com o narcotráfico causou a degradação moral do movimento.”

ELN tem suas raízes na teologia da libertação

O ELN foi fundado em 1964 por estudantes universitários inspirados na revolução cubana e por padres católicos que abraçavam a teologia da libertação, a radical doutrina da igreja que prega que os pobres têm o direito de se levantar contra seus opressores.

Como as FARC e o M-19, o ELN fazia parte de uma sopa de letrinhas de movimentos guerrilheiros que surgiram nas décadas de 60 e 70 em resposta à pobreza da Colômbia e ao então sistema político de exclusão que afastou os esquerdistas.

Mas, ao invés de unir forças para formar um movimento insurgente único e forte que poderia ter ameaçado o governo de Bogotá, esses exércitos rebeldes brigavam entre si constantemente sobre ideologia e estratégia e passaram grande parte de seu tempo lutando entre si.

Inicialmente, o ELN lutou e foi quase exterminado em 1974 por uma operação do exército colombiano que reduziu o grupo guerrilheiro a apenas algumas dezenas de combatentes. Um dos sobreviventes foi Nicolás Rodríguez Bautista, também conhecido como Gabino, líder supremo do ELN, agora com 71 anos de idade.

Mas o ELN se reagrupou em meio ao boom do petróleo da Colômbia na década de 80. As petrolíferas foram forçadas a entregar grandes somas ao ELN em troca de permissão para explorar petróleo e operar em áreas que os guerrilheiros dominavam. A falta de pagamento resultava frequentemente em ataques à bomba aos oleodutos e outras infraestruturas petrolíferas.

ELN depende de crimes violentos e do narcotráfico

O ELN é um grupo autofinanciado em grande parte pelas receitas provenientes de sequestros, extorsão e, agora, do narcotráfico. Devido às suas raízes religiosas e ao seu desejo de forjar uma identidade mais limpa que as FARC, o ELN, a princípio, evitou o narcotráfico por ser “prejudicial à humanidade”. No entanto, o ELN justificou o sequestro de civis para fins de resgate e logo se tornou especialista nesse tipo de crime.

Em 1999, por exemplo, o ELN sequestrou um voo doméstico da Avianca Airlines, obrigou-o a descer em uma pista de pouso clandestina no norte da Colômbia, sequestrando os passageiros e a tripulação. Naquele mesmo ano, comandos do ELN também sequestraram uma congregação inteira de uma igreja de 186 pessoas na cidade de Cali, que ainda permanece como o maior sequestro em massa da Colômbia.

Mas, na última década, o ELN tem sido devastado pelas forças armadas colombianas, bem como por esquadrões da morte paramilitares que visavam colaboradores civis do grupo. Além disso, uma guerra fratricida eclodiu com as FARC, que tentou tomar os redutos do ELN em Aruaca, Santander e outros departamentos.

Nos últimos anos, segundo o analista político de Bogotá Alvaro Jiménez, o ELN “está hibernando e tem-se dedicado à própria sobrevivência.”

Para protelar a eliminação total foi preciso dormir com os inimigos. Desde 2007, por exemplo, o ELN se uniu a várias das chamadas “bandas criminales” – ou grupos criminosos – que são as ramificações de grupos paramilitares que abandonaram as armas em meados dos anos 2000, agora dedicados ao narcotráfico.

O ELN formou uma aliança com um grupo chamado Los Rastrojos, no departamento de Cauca, no sudoeste do país, de acordo com o Insight Crime. Em troca da venda da pasta base de coca, uma forma rudimentar de cocaína, ao Los Rastrojos, proteção aos laboratórios de drogas e escolta dos carregamentos para o litoral do Pacífico, o ELN tem recebido dinheiro, armas, munições e equipamentos de comunicação. Essa aliança permitiu que o ELN pudesse fazer as FARC retroceder em Cauca.

Aliança ELN–FARC levou a um aumento nos ataques terroristas

Em dezembro de 2009, o ELN e as FARC anunciaram uma aliança e cessar-fogo em todo o país entre os dois grupos rebeldes, embora a luta tenha continuado por vários meses devido à incapacidade dos líderes guerrilheiros de impor disciplina, disseram autoridades.

McDermott disse que a trégua permitiu que os grupos dedicassem mais recursos para combater as tropas do governo, o que ajuda a explicar o aumento dos ataques rebeldes nos últimos dois anos.

“Os dois grupos guerrilheiros se complementam”, disse McDermott. “As FARC são melhores em estratégia militar, capacitação e implementação desses componentes no campo de batalha. O ELN é melhor em infiltração política e na construção de redes de colaboradores em ambientes rurais e urbanos.”

No ano passado, as forças armadas colombianas estimaram que o número de combatentes do ELN saltou de 1.500 para 2.000, embora alguns analistas considerem esses números inflacionados. E, devido à aliança com as FARC, tornou-se mais difícil determinar o número de membros do ELN.

Mas, ao mesmo tempo em que se reequipa, o ELN tem enviado sinais de negociações de paz ao governo colombiano. Na verdade, o ELN se reuniu em várias rodadas de negociações com o governo colombiano, mas o esforço mais recente, em Havana em 2007, terminou em fracasso.

Alguns analistas sugerem que, se o ELN eventualmente abandonar as armas por intermédio de um processo de paz, o grupo poderia continuar na forma de um partido político de esquerda, como fizeram os rebeldes do M-19 após sua desmobilização em 1990. O ex-guerrilheiro do M-19, Gustavo Petro, assumiu a prefeitura de Bogotá em janeiro, um posto que, muitas vezes, serve de plataforma de lançamento para a presidência.

“O triunfo de Petro em Bogotá é um sinal de que é possível, por meio do processo democrático, a esquerda alcançar o poder”, disse Daniel Garcia-Peña, um ex-comissário de paz do governo colombiano.

O analista político de Bogotá, Luis Eduardo Celis, disse que os principais comandantes do ELN não apoiam mais a luta armada, mas não estão dispostos a tomar parte em um processo de paz se isso significa rendição total. Por sua parte, o presidente Juan Manuel Santos disse, no mês passado, que o ponto de partida para novas conversações deve ser um cessar-fogo e a libertação de todos os reféns mantidos em cativeiro pelo ELN.

“A sociedade colombiana não quer um processo de paz com o ELN porque as pessoas acreditam que não há nada para negociar”, disse o analista Jiménez. Para a maioria dos colombianos, “as negociações de paz fazem pouco sentido se o ELN foi derrotado.”

 

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As FARC têm causado muitos danos ao país... Têm praticamente um exército, constituído de homens que foram sequestrados quando crianças... Têm assassinado milhares de cidadãos inocentes. Têm sido selvagens com seus sequestrados, são praticamente um grande grupo de homens dedicados ao tráfico de drogas, não têm nenhum apoio popular, nem simpatia internacional. Eles não têm nada mais a fazer a não ser baixar as armas... E não o fazem porque o cartel de drogas é dirigido pelo alto comando das FARC...

hernan Dia 24/01/2012 at 05:35PM

 
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